Surtos Poéticos de Duas Mentes Avariadas
Um Espaço Imaginário onde a Voz dos Loucos soa mais Forte... Um Espaço onde Ariel e Caliban estarão eternamente a digladiar...
sexta-feira, 16 de março de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
Imitação
sexta-feira, 29 de julho de 2011
O Mito da Superioridade do Macho na Divisão do Trabalho das Sociedades Primitivas (devaneios mal articulados feito nas coxa)
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Renascimento
Hoje, meus dedos enferrujados tateiam no escuro em busca das teclas corretas, hesitando antes de cada palavra, como se temendo o equívoco. Falta-me aquela certeza de outros tempos de que, em poesia, não existem equívocos. Mesmo o erro aparente não é senão mero exercício da liberdade de poetar (ainda que inconsciente). Porém escrevo.....
Sinceramente, causa-me certa estranheza o ímpeto que me acometeu, inesperadamente, de fazê-lo. Há muito tempo não experimentava tal sensação....
Não sei, uma série praticamente interminável de contrariedades tem me sido ofertada, como que um presente. Algo como encontrar Ariel nas primeiras linhas de um longo livro para, já na página seguinte me deparar com Caliban. Como a dualidade é angustiante! Angustiante porque não é possível entregar-se nem a um nem a outro. Ambos, simultaneamente, pretendem me consumir, sem atentar, porém, para o fato elementar de que o meu corpo é materialmente limitado. Antes fosse apenas espírito....
O material se quebra com uma facilidade que, consciente ou inconscientemente, preferimos ignorar. Quão frágil nós somos...? Contudo, o certo é que o golpe mais duro é aquele que não se atenta para a carne, buscando, fundo, atingir a alma. Este sim, é insuportável! A alma grita loucamente, em agonia, enquanto, mirando no espelho em sua frente, vê a miragem da face de Caliban emergir emoldurada da superfície fria e morta. E, em meio à agonia, se regorjiza enquanto observa Ariel executar suas piruetas ao longe, por detrás da dor. Quanta contradição! Não apenas o corpo se aquebranta como também a alma.... Eis que perece o ser, quando sequer o pensamento ousa persistir.
Preenchido, então, o requisito essencial para o renascer!
P.M.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O monstro do lodo

O monstro do lodo
À sombra daquelas altas falésias, o mar roçava os pedregulhos da praia e a espuma se desfazia lentamente na areia como um sonho fugidio. Foi assim que o sujeito desleixado despertou na madrugada daquele dia. Já havia se acostumado com o cheiro de poeira, mofo e abandono no qual aquela casa cheia de aposentos inabitados havia se perfumado. Já nem lembrava a última vez que outra pessoa deitou sobre aqueles colchões vazios de quartos sem dono. Só havia ele e a madeira que compunha a residência, estalando o tempo todo mastigada por cupins. Mas esses insetos estavam particularmente calmos nesses tempos. Era quase como se não quisessem mais ser notados. Até mesmo as baratas se escondiam em qualquer brecha nas paredes e no piso sem se revelar nem mesmo nas horas mais seguras e brandas da calada da noite para os seus furtos suculentos.
Como eu poderia esquecer do lixo e de toda aquela sujeira encardida e tingida em cada parede, chão, mobília? Bastava esboçar uma idéia sobre a fachada da casa e aquilo invadia os meus pensamentos. Como poderia deixar de mencionar que o sujeito largado em um colchão velho e surrado passava o tempo pintando com os seus dedos desgastados de estarem tanto em contato com as cores tóxicas enxaguadas pela tinta? Era esse o estado tanto da casa quanto do rapaz, estavam banhados num total ostracismo higiênico de ordem material e imaterial.
A imundície havia conferido uma aparência diferenciada a todo organismo e objeto que compartilhava daquele espaço, uma personalidade adquirida com o passar do tempo, com o passar dos pratos sujos negligenciados. Era da cozinha que emanava o aspecto mais marcante daquele ambiente mal cheiroso. Acredito que a essa altura o próprio lodo que germinava daquela pilha de pratos e panelas e comida velha e podre por sobre a pia, já havia sido abençoado com vida inteligente em um processo acelerado que ao invés de ter durado milênios, só precisou de alguns meses (Darwin e Oparin se sentiriam envergonhados nesse momento). Talvez, até mesmo um sistema político já pudesse estar em curso, uma colônia de seres que foram gerados da porcaria.
A fecundação do derradeiro e mais repugnante ato dos processos biológicos começa com a ação de comer. A inoculação do germe disfarçado em aromas e sabores que instigam o nosso apetite e saciam a fome e também o espírito de alguns poucos afortunados está inexoravelmente associada a uma cozinha no mundo contemporâneo. No final só resta uma matéria morta habitada por vermes decrépitos fervilhando orifício afora. O próprio banheiro daquela morada nem se compara no que se refere ao fedor e ao incômodo visual. Presenciar aquilo era pior do que ver bosta. Era como deglutir fezes no almoço em um dia bastante quente e incômodo. Nem o ato de se alimentar era agradável nessa casa. A cozinha estava com preguiça e literalmente pegou um atalho para o sanitário. Quando desaceleramos o carro para testemunhar um acidente, é como se estivéssemos nos certificando de que não somos nós ali estatelados no asfalto, como diria Neil Gaiman, ou de que não deveríamos estar ali naquelas condições ou simplesmente por que é deveras interessante ver a morte que nos ronda a todo o momento estampada em outras caras. A cozinha é a afirmação da merda que negamos para nós mesmos e aquela em particular refletia esse ponto de vista. Comer é cagar.
O repetido tilintar de pingos de torneira retumbando nos pratos e panelas ressoava irritante cozinha afora por todos os aposentos. Mas o que fez o sujeito relapso interromper o seu sono de litorais paradisíacos foi um barulho quase mudo de algo se remexendo no saco de lixo que ficava debaixo da pia. “Deve ser um rato”, disse para si mesmo enquanto limpava a remela de seus olhos e acariciava a parede onde havia escrito um pressagioso poema em prosa incompleto para a “menina dos seus olhos” que o deixou cego de amor por vários verões quando se despediu brutalmente de sua vida:
“Sua língua é uma constritora que se enrosca em minha mandíbula com a face apontada para os meus olhos submissos. O estalar dos ossos é um sinal para que a sua boca engula o meu crânio despedaçado. E de dentro da sua barriga reerguerei da minha casca idosa, desafiarei a morte como uma fênix e também dançarei nas chamas como um demônio travesso. Logo, te cobrirei como um casulo intumescido. Deixarei a chuva me lavar e quando o sol me desfizer como uma folha seca, uma brecha se pronunciará e você deslizará por sobre as flores como uma rainha recém-nascida. Até que o vento assopre suas asas embora e eu recolha sua matéria morta para os meus túneis cálidos...”
Ainda lembrava-se de uma história melancólica que ela havia sussurrado em seu ouvido sobre o amor do céu e do sol. Daquelas que são contadas por vozes melodiosas como se fossem cantigas. Daquelas que começam sem um começo e acabam sem um final. O sol havia desaparecido e os dias se tornaram nebulosos e amontoados de nuvens no dia seguinte. O céu não cessou de chorar por dias incontáveis, isso na aurora dos tempos. Quase não havia luz e calor, só o negrume da noite e o frio úmido de chuvas torrenciais. Oceanos e rios brotaram dessa era triste e lamuriosa. Um dia, o céu decidiu parar de chorar e para a sua surpresa, avistou o sol incólume na vastidão do espaço. “É preciso desobstruir o céu nublado para que paremos de chorar”, a moral seria algo desse gênero se é que havia alguma intenção naquelas palavras.
Dias e mais dias se passavam e em todas as madrugadas sem exceção, aquele barulho escapava pela cozinha interrompendo o sono do sujeito relapso. O barulho de algo se esperneando no saco plástico dentro do lixeiro congestionado se tornou um hábito tal, que o sujeito já o havia ignorado. Mal dava atenção ao fato de aquilo estar acontecendo com mais freqüência e até mesmo durante o dia. Também não lembrava a última vez que havia se sentado para comer na cozinha ou lavar pelo menos um copo para beber água. Se havia ratos perambulando livremente pela casa ele não estava dando à mínima. Pelo menos havia companhia naquela casa grande e vazia. Já que os cupins e as baratas decidiram tirar férias daquele lugar emporcalhado, o que era estranho, pois em dias comuns esse seria o próprio paraíso para os insetos carniceiros. Há alguns meses moscas e formigas também já não eram mais vistas por lá. O que ele não sabia é que na verdade esses bichos fugiram da casa, fugiram de medo. Era sufocante para eles suportar aquele fedor exótico proveniente daquela pia enlameada de lodo cáustico.
Toda a cozinha agora tinha esse bafo monstruoso que se tornou o próprio cheiro do rapaz e se atirava em todas as direções num raio de vários metros até mesmo fora das dependências da residência. De alguma forma inexplicável o rapaz era tão despreocupado e indiferente àquilo que pouco fazia diferença. Não havia percebido que o cheiro havia moldado a sua própria aparência de uma forma tão eficaz que se uma pessoa o visse por acaso, o confundiria com um monte de merda cagado repetidas vezes pelo mesmo ânus infeccionado de tanto defecar. Uma diarréia humanóide, sem exageros. Só percebeu a gravidade da situação quando enfim foi passear pela cidade depois de muitos dias de enclausuramento naquela masmorra. Os animais não se aproximavam de sua pessoa e algumas pessoas tiveram acessos de nojeira tão profundos que vomitaram umas às outras. Repulsa física no grau mais absurdo que se possa ter noção. “Basta”, disse para si mesmo.
Entrou na cozinha empunhando uma garrafa plástica de água sanitária em uma mão e na outra um facão que ele usava para se defender de cobras e outros animais quando resolvia acampar. Não sabia ao certo o porquê de ter levado aquele facão, foi mais uma atitude impulsiva, instintiva, auspiciosa. O lugar estava mudado. Era como se um nevoeiro houvesse fincado uma bandeira naquela cozinha declarando abertamente o seu domínio, como em um terreno onde as brumas assolam com eventos sombrios e histórias soturnas. Estava morno lá dentro e algo parecia borbulhar das panelas sobre a pia. Sua pele começou a coçar e seus olhos lacrimejavam em ardentes salpicos de vapor mal-cheiroso.
Enquanto jogava água sanitária e bactericida para esterilizar aqueles azulejos vestidos com uma gosma cinzenta e esverdeada, o saco de lixo se sacudia em reprovação àquela ofensa à imundície. O pavor tomou conta do sujeito relapso, mas ele caminhou cuidadosamente até o lixeiro. Tinha certeza de que havia algo se esgueirando por ali, o observando, e não era um rato. Mirou aquele bolo de lixo e até conseguiu reconhecer uma lasanha quase secular que havia jogado pela metade no topo daquela massa quase uniforme de refeições desperdiçadas. Sentiu nostalgia, uma sensação familiar e quase tão pesada quanto o amor. Esqueceu do perigo iminente perdido em memórias tenazes de uma discussão sobre uma refeição pré-pronta. De repente, um braço magricelo e peludo com garras afiadas se atirou de dentro do monturo e agarrou firmemente o pulso armado do rapaz distraído.
Um combate violento se desenrolou. A prataria se espatifava, talheres fincavam nas paredes que escorriam um líquido tão consistente quanto melaço, armários despencavam, a despensa se quebrava e o sujeito relapso lutava desesperadamente por sua vida contra aquele homúnculo esquisito e asqueroso que estava hospedado sob a pia da sua cozinha. Conseguiu se desvencilhar daqueles braços tão maleáveis quanto tentáculos e despejou todos os produtos de limpeza que encontrava espalhados pela casa sobre a torpe criatura. Mal havia notado que seu braço pendia sem vida devido ao ataque fulminante do monstro do lodo. Estava bastante escoriado e encontrava-se no chão enquanto a criatura caminhava enfraquecida devido aos produtos desinfetantes, em sua direção. Estava determinada a tomar conta daquele lugar. Para isso deveria exterminar o seu último morador.
O duende abissal expressou um sorriso tão sublime quanto um esboço de algo que o próprio Satanás faria quando se deparasse com a vitória quase certa sobre Deus. Uma felicidade tão eminente que estaria consequentemente à sombra de um vazio autodestrutivo. Estava tão entretido na véspera daquele evento tão assustador quanto sedutor, que mal percebeu os potes de tinta que o sujeito relapso e abatido arremessou em suas órbitas e focinho. Um uivo lancinante se projetava de algo semelhante a uma garganta e o sujeito aproveitou o momento para desferir-lhe um golpe com um rodo que estava encostado ali em algum lugar. Atacou furiosamente até que só restasse uma poça de lodo mutilada. Despencou exausto no chão e em meio a vários pensamentos do tipo “preciso de um balde, uma vassoura”, “como poderei pintar com um braço inútil?”, ele percebeu que antes de mais nada precisava de um banho.
Para Igor e para Lara Celi, por Igor Bacelar
Arte de Dave Mckean
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Vinho, vodka, cigarros e sanduíches a fazer
Esperei por que quis esperar, aquela coisa meramente animalesca de fazer por fazer, por que é assim que nós somos. Ignorei a "última chamada" do ônibus da meia-noite sem nenhuma razão aparente. E é assim que somos, como qualquer animal, só que temos a capacidade fantástica de justificar. Pra isso criamos histórias coerentes com a nossa razão. Com o tempo botamos aquela merda toda em uma porção de registros humanos e blá blá blá. Agora temos bíblia, leis e livros de auto-ajuda. Somos mestres para o ato de justificar-nos quando na verdade a gente num sabe de porra nenhuma. Bom, descobri mais tarde o porque de ter esperado. Sem saber, por obra do cosmo ou algo tão soturno quanto, o que eu realmente esperava era uma boa história que estava prestes a acontecer ali na minha frente. Daquelas sem razão, daquelas que independem da compreensão racional e baseada na repetição de fatos e verdades óbvias para o nosso completo entendimento. Afinal, só entendemos o que sabemos. Se não entendemos, não precisamos ouvir. Se tentarmos entender, será óbvio. Óbvio, ovo. Ovo óbvio (sic).
Mal percebi uma confusão que surgiu aparentemente do nada no meio da avenida. Havia uns cinco sujeitos cercando um rapaz baixinho de porte atlético e eles estavam literalmente se quebrando. Mais precisamente, tentando arrebentar as fuças, as costelas, crânio e o caralho do sujeito baixinho. Para minha surpresa não estavam conseguindo. Ele se esquivava e usava latões de lixo, paredes e até os próprios perseguidores para se defender e evitar as duras pancadas. Depois ele partiu para uma estratégia mais agressiva. Começou com um carequinha de barba mal-feita e meio pançudo. Abri o dicionário como faço toda manhã antes de dar uma bela cagada e mirei a palavra descomer. Descomer é a mesma coisa que expulsar os alimentos pelo ânus, defecar. Cagar. Uma coisa que sem dúvida seria dolorosa para o sujeito que sem ter tempo para reagir à investida do baixinho, recebeu a mesma garrafa de vinho que eu havia tomado e jogado em qualquer canto por ali horas antes bem no cu. Ela se espatifou e com o resto despedaçado dela, o "pequenino glutão" desferiu um golpe bem na barriga gorda do infeliz.
Os caras finalmente conseguiram cercá-lo e começaram a encher o "exército de um homem só" de porrada. Era muito soco e ponta-pé. O pequeno conseguiu se agarrar no pescoço de um e cravou os seus dentes nele. Uma gritaria infernal escorreu goela abaixo do agressor. Chegava a ser engraçado como um filme de Tarantino. Era muito sangue, muita violência e eu estava bêbado. A briga foi se arrastando de um lado para o outro, dois homens estavam agonizando no chão e aquele bolo de pessoas em frenesi se movia de um lado para o outro em um bailar quase premeditado. Como um balé insistentemente ensaiado até beirar à perfeição. E a música. Oh, mas que música ressoava daquele bando de filhos duma puta. A respiração ofegante, o som de costelas se partindo no meio, a lama sangrenta vomitada em direção ao asfalto morno, os dentes tilintando no asfalto com um som oco e praticamente imperceptível, maxilares deslocados. As navalhas! Já ia me esquecendo, não sei de onde surgiram, provocavam um som gasturento. Era pior do que arrastar as unhas em uma lousa. Rasgava não só a carne daqueles viados, rasgava a minha tranquilidade em ver aqueles artistas selvagens se apresentando naquele palco a céu aberto estocando aquelas lâminas no couro anelante. Acho que até gritei pra que eles parassem, mas não me deram ouvidos. O bom artista nunca cede. Genuíno demais! Ali era a peça da vida em sua forma mais crua e verdadeira. O embate desesperado entre a vida e a morte. E a morte, meus caros, nunca perde uma luta, apenas adia o veredicto.
Debaixo de toda aquela carne moída, eis que surge o sujeito baixinho. Todo melado, coberto de sangue, filé e a porra toda. Levantei o meu braço direito empunhando a garrafa de vodka que estava há um terço do final e ele veio até mim. Bebeu tudo e nem deixou um gole, depois meteu uma garrafada na minha cabeça. Pelo menos eu caguei direitinho na manhã seguinte.
I.B.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Supernova

sábado, 25 de setembro de 2010
Amálgama

A insanidade usou o meu estado psíquico vulnerável para se instalar em minhas densas e férteis selvas. Foi quando notei que não só havia um precipício com o qual eu deveria me preocupar. Os outros, sentados sob aquela árvore antiga, abrigavam também dentro de si os seus próprios abismos, suas próprias estradas, e por mais desconhecidas que fossem não deixavam de me ser horrorosamente íntimas. Teletransportes inexplicáveis, sombras vivas, uma pousada que era residência da perversão personificada...
Sentia a minha própria consciência ser puxada delicadamente como que por uma correnteza traiçoeira e sutil rumo aos recifes alheios da existência de cada um daqueles que ali estavam narrando a sua cota de absurdos irracionais e se espantando inocentemente. Inocência essa que uma vez perdida... Aquele papo que se desenrolava era sem pé nem cabeça, pareciam aqueles relatos que se sucedem em histórias de ficção ou filmes de terror e comecei a me sentir como parte de uma trama, assim como Sofia, Alice e muitos outros antes delas.
Havia um espantalho caminhando em nossa direção, carregando nas costas um quarto de paredes amarelas. Abri a porta e entrei sem nenhuma cerimônia e deixei para trás aquele lugar assombroso de brumas cinzentas e fétidas. Minha cabeça ainda pendia para algum lugar bem fundo e além de tudo o que eu tinha conhecimento. Era como se eu estivesse sendo tragado para as profundezas de um oceano banhado por algo ainda mais sinistro do que as trevas, soterrado por cavernas dentro de cavernas das zonas abissais e rodeado por monstros gigantescos dos mares mais maliciosos. O que eu ouvira até então, não passava de um sonho distante acerca de um diálogo fantástico proferido nos domínios da realidade.
Um cachorro sorridente, que estava ali no quarto vestindo aqueles trajes típicos de mordomo, me ofereceu “uma xícara de chá ou de café”, preferi o chá. De alguma forma esquisita, eu me senti seguro naquele refúgio. O que mais me incomodava na narrativa daqueles contadores de histórias era aquele velho maniqueísmo desconfortável que chacoalhava os meus próprios pensamentos.
Não perdurou muito aquele calor aconchegante de segurança. O calor começou a ser invadido por um vento gelado e forte, tentei me agarrar do fundo da minha alma naquele aposento amigável, mas tudo aquilo escorregava de mim. O cão se desfazia aos poucos como chocolate em banho-maria e quanto mais eu me pendurava nas cortinas etéreas das janelas do quartinho, mais eu era empurrado porta afora.
Acordei.
As pessoas continuavam a cavar cada vez mais buracos com os olhos, com as bocas incansáveis e os pulmões congestionados, “cof cof”, expandir aquele gigantesco cânion sob aquela árvore antiga. As raízes ameaçavam se atirar rumo a um despenhadeiro interminável. A belíssima jovem estava sabidamente encostada no tronco da árvore e não havia mais do que risadas em sua participação na gênese daquelas covas fundas. Ela também não pretendia despencar.


